quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Não caia na tentação de dar a seu filho tudo o que ele pede; dizer "não" educa




Em plena semana do Dia das Crianças, comemorado no dia 12 de outubro, você deve estar às voltas com uma lista imensa de pedidos de presentes, resolvendo o que quer ou o que pode comprar. Mas já parou para pensar no que faz seu filho feliz de verdade? Ter o brinquedo mais tecnológico do momento? O mais caro da turma inteira? Ganhar o primeiro celular, mesmo que o equipamento não seja indicado para a faixa etária dele?


Se a sua resposta foi “sim” a alguma dessas perguntas, é bom parar e reavaliar sua postura. Você pode estar valorizando coisas que ele nem considera importantes para estar feliz no dia a dia e, pior, ensinando que o consumo ocupa um lugar muito mais importante do que aquele em que deveria estar. “Os pais têm de ter valores muito sólidos. Têm de entender que eles são a principal referência na vida da criança. É neles que ela vai se espelhar em primeiro lugar", afirma Laís Fontenelle Pereira, psicóloga do Instituto Alana, ONG que atua em defesa da criança.

Ver uma criança feliz é muito mais simples do que muitos pais imaginam. Pesquisa recente e inédita realizada pelo Datafolha a pedido da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) ouviu 1.525 crianças, de quatro a dez anos, de todas as classes sociais, de 131 municípios brasileiros, e revelou que o dia em que 96% delas se sentem "muito alegres" e "alegres" é o dia do aniversário, quando são o centro das atenções e estão rodeadas pelos amigos e pela família.

Praticar esportes, brincar com os amigos, férias escolares e assistir à televisão foram os outros momentos, nessa ordem, vencedores na escala de felicidade no levantamento. Além disso, 71% das crianças entrevistadas disseram se sentir "muito tristes" e "tristes" quando estão longe da família. "Uma data como o Dia das Crianças deveria ser dedicada, simplesmente, a relembrar o direito de ser criança, comemorada com brincadeiras e compartilhamento de momentos de alegria entre pais e filhos", diz a psicóloga Silvia Frei de Sá, líder de projetos de educação do Instituto Akatu, ONG que defende o consumo consciente.

Eu quero! Eu quero! Eu quero!


Os números da pesquisa mostram uma realidade muito bem-vinda, mas, na prática, a criança está inserida em um universo de desejo em que basta ligar a TV para ficar exposta a uma enxurrada de propagandas que desperta nela a vontade de ter boa parte daquilo que vê. O resultado? Pedidos e mais pedidos.
Tem explicação. "Até os oito anos, ainda não há a capacidade de abstração necessária para diferenciar um conteúdo publicitário de um que não é. Se, nessa idade, a criança vir uma propaganda em que seu personagem favorito transmite a ideia de que ela tem de comprar determinado produto, ela vai querer comprar", diz a psicóloga Laís Fontenelle, do Alana.


"Ela é constantemente estimulada a consumir e, no geral, está mais interessada na experiência positiva que a publicidade transmite do que no produto”, afirma Silvia Sá, do Akatu.

A importância do não


Como não ceder aos apelos de consumo do filho que, na maioria das vezes, tem o poder de dobrar os pais pela emoção? "O pai e a mãe são os adultos da relação", fala Laís. "São eles quem sabem o que pode e o que não pode, que têm de dar o exemplo correto e ensinar valores", diz a especialista.


"O ponto negativo é que o relacionamento atual entre a criança e seus pais está muito ligado à questão do comprar, do ter. Ter para ser, como se a quantidade de objetos fizesse a gente melhor como pessoa", afirma a pedagoga Roselene Crepaldi, conselheira da Aliança pela Infância e doutora em educação infantil. Para agravar a situação, os pais têm cada vez mais medo de dizer "não" ao filho, já que muitos carregam a culpa de não estarem presentes como gostariam no dia a dia.

Negar um pedido da criança, sempre que achar pertinente, é muito importante. “Faz parte do desenvolvimento infantil se habituar às regras de convivência. À medida que o pai estabelece um limite, a criança passa por uma frustração que contribui para seu amadurecimento", afirma Saul Cypel, neuropediatra do Hospital Israelita Albert Einsten, de São Paulo, e consultor da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, voltada à primeira infância. "Pais têm medo de falar 'não' porque receiam quebrar a relação com o filho, mas faz parte", diz Roselene, da Aliança pela Infância. "O dinheiro não pode ser mais importante do que o convívio".

Diálogo: simples e eficaz


O diálogo ainda é a melhor opção. "Quando uma coisa faz sentido para a criança, por mais que a chateie ou a frustre, ela aceita. Os adultos acabam não tendo muita paciência, mas têm de sentar com o filho e explicar os motivos de ele não poder ter determinada coisa", diz Silvia.
Na tarefa de driblar o consumo infantil, fique atento à questão do "duplo comando", conforme denomina Laís, do Instituto Alana. "A criança aprende com os exemplos. Não dá para proibi-la de comprar o que quer e sair de outra loja carregado de sacolas com coisas para você. É importante que os pais tenham coerência entre o que falam e o que fazem".
Se o Dia das Crianças pode ser comemorado com presentes? Pode, dizem os especialistas. O único ponto é usar de ponderação, colocando o consumo em seu devido lugar, que é bem depois das relações familiares. 
*Colaborou Fernanda Alteff

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